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Revista Época: "Um mundo feito de lixo"

O lixo produzido por humanos cresce sem parar, ameaçando o meio ambiente e a saúde

Créditos: Revista Epoca Imagem: Reprodução Imagem: Reprodução

Lagos, na Nigéria, é a maior cidade da África. Como em tantas outras metrópoles globais, o lixo é um grande problema para seus 21 milhões de habitantes. O que parecia ser uma boa solução há 15 anos – levar o material para uma área fora da cidade – hoje é fonte de dor de cabeça. O aterro Olusosun, para onde são levados os resíduos descartados pela população, é o maior da África e um dos maiores do mundo. Mais de 4 mil pessoas trabalham e moram lá, em estruturas de tendas no alto das montanhas de lixo. Lagos, que antes estava distante do lixão, cresceu tanto – e de forma tão desordenada – na última década que abraçou o depósito. A proximidade contribui para o surgimento frequente de epidemias de doenças transmitidas por animais que vivem na sujeira.

Com a experiência de fotografar conflitos na África, além de trabalhos sobre os sete maiores rios do mundo e a elevação do nível dos oceanos, o fotógrafo holandês Kadir van Lohuizen apostou no lixo. Viajou para cinco grandes cidades do mundo – Lagos, Jacarta, Tóquio, Nova York e São Paulo – para documentar como administram, ou não, os restos descartados por seus habitantes. 

É incômodo, mas inescapável. Com o aumento da população e sua crescente concentração em áreas urbanas, produzem-se cada vez mais rejeitos. A produção no mundo deverá quase dobrar até 2025, saltando de 1,3 bilhão para 2,2 bilhões de toneladas por ano. Se todo o material jogado fora num só dia fosse enfileirado, daria para cobrir uma distância entre Nova York e Londres. A pior parte é o material inorgânico, formado por plásticos, papéis, metais e vidros. Eles não se degradam. Contaminam não só o solo, como rios e oceanos. Os cientistas estimam que existam pelo menos 5,25 trilhões de partículas de plástico – que pesam cerca de 270.000 toneladas – flutuando nos oceanos neste momento. Em 2050, mantendo o ritmo, haverá mais plástico nos oceanos do que peixes, de acordo com especialistas. 

Com diferentes graus de aproveitamento e tecnologia de reciclagem em cada uma dessas cidades, Van Lohuizen percebeu que, mesmo sendo um estorvo para seus administradores, o lixo pode ser também uma fonte de recursos e sobrevivência. Na nigeriana Lagos ou em aterros no Brasil, pessoas em condição de miséria tiram seu sustento a partir do garimpo nos dejetos. Em São Paulo, os resíduos recicláveis são destinados a 41 cooperativas de catadores cadastrados na prefeitura, gerando uma cadeia de trabalho e renda em função do lixo.

As imagens de Van Lohuizen cumprem a função de mostrar que a vida contemporânea tem um preço. Nosso conforto material ainda descansa sobre o desperdício. As imagens chocantes ajudam a levantar a necessidade de pensarmos em formas de reaproveitar os materiais e jogar menos lixo fora.
 

Fonte: Revista Època
Editor: Evandro Jr.

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